A última vez que te escrevi foi a 2 de Julho.

Sete semanas.

Não foi bloqueio nem falta de assunto.
Subi ao palco do Portugal Conecta em Ermesinde, no fim de Junho, tirei duas semanas de férias, voltei ao trabalho, e depois passei um mês a arrumar o que já tinha em vez de publicar coisa nova.
Foi uma decisão, não um acidente.

O que não parei foi de ver. Todos os dias, o mesmo feed que tu vês.

E voltei à espera de sentir uma coisa que não senti.

O que eu esperava

Esperava voltar atrasado.
É isso que o feed promete.
A inteligência artificial costuma chegar-te em dois sabores.
O medo, que é "se não estás a usar isto, estás a ficar para trás".
E o milagre, que é "isto muda tudo".

Sete semanas fora são muito tempo, na escala em que estas coisas são vendidas.

Abri o portátil à espera de encontrar o meu trabalho obsoleto.

Estava exactamente onde o deixei.

O que saiu mesmo

Aqui tenho de ter cuidado, porque a versão preguiçosa desta newsletter era dizer-te que não saiu nada. Mas saiu.

Nas sete semanas em que estive calado, a xAI lançou o Grok Bot a 11 de Agosto, uma plataforma de agentes que trabalham sozinhos.

No dia seguinte lançou um modelo novo.
O Claude Cowork, da Anthropic, passou de computador para web e telemóvel.

E a OpenAI abriu os Workspace Agents, agentes de equipa alojados na cloud, ainda em testes fechados.

Saíram coisas. Coisas a sério, não anúncios vazios.

O meu trabalho é que não mudou.

Essas duas frases não se contradizem.
A diferença entre elas é o assunto de hoje.

Porque é que não mudou

Existem duas partes em qualquer ferramenta de IA, e quase toda a gente as trata como se fossem uma só.

A primeira é o motor.
É a parte que pensa.
É o que decide se a resposta que recebes é boa ou é lixo.

A segunda é o carro à volta do motor.
A memória, que é ele lembrar-se do que tu lhe disseste ontem.
Os acessos, que é ele poder abrir a tua agenda ou o teu email.
E o arranque, que é ele trabalhar sozinho às nove da manhã ou só quando carregas no botão.

Quase tudo o que saiu nestas sete semanas foi carro.
O motor é praticamente o mesmo.

Isto não é insulto.
O carro importa, e quem já tentou montar aquilo à mão sabe o trabalho que dá.
Mas o carro copia-se em meses.
Assim que uma marca mostra que vale a pena ter aquilo, as outras têm no ano seguinte.
Um motor melhor é que não se copia.

Por isso, quando alguém te disser “isto acaba com a concorrência”, pergunta a ti próprio o que é que mudou mesmo.
Se foi o carro e não o motor, a previsão certa não é que os outros morrem.
É que os os outros copiam.

O que a pausa custou mesmo

Não te quero vender a pausa como estratégia.

Sete semanas de silêncio custaram.
Custaram-me ritmo, e custaram-te a ti, que subscreveste isto à espera de receber qualquer coisa.
Isso é real e é meu.

O que não custou foi capacidade.
Não existe uma competência que eu tenha perdido nestas sete semanas.
Não existe um trabalho que eu fizesse em Julho e não consiga fazer hoje.

Vale a pena separar as duas coisas, porque o medo mistura-as de propósito.

Perder consistência é um problema, e é meu.
Perder relevância técnica em sete semanas não aconteceu.

Como decidir se um lançamento te afecta

Três perguntas. Demoram menos a fazer do que a ler o post do costume.

Primeira: mudou o motor, ou o carro à volta dele?
Se foi o carro, respira.
Aquilo chega ao sítio onde já trabalhas dentro de pouco tempo.

Segunda: quem testou, e durante quanto tempo?
Um vídeo gravado no dia do lançamento não é um teste.
É uma primeira impressão.
E perguntar ao próprio sistema o que ele consegue fazer, para depois acreditar na resposta, também não é um teste.

Terceira: o que falha quando falha, e quem paga?
Um agente que arruma a tua folha de caixa engana-se e tu corriges, e ninguém fica a saber.
Um agente que responde a clientes engana-se e o cliente acredita nele. Quase todas as demonstrações que vais ver são do primeiro tipo, e quase todos os problemas reais são do segundo.

Se as três respostas te disserem que aquilo não te afecta, fechaste o assunto
em dois minutos e voltaste ao trabalho.
É lá que o retorno está.

Esta semana volto ao ritmo normal. Uma edição por semana.

Se andas a adiar alguma coisa com IA porque sentiste que já ias tarde, responde a este email e diz-me o quê. Leio todos.

Até à próxima semana, no mesmo processo e no o caos habitual.
Ricardo Costa

P.S. Se conheces alguém que anda a pagar subscrições de IA por receio de ficar para trás, reencaminha-lhe isto.
As três perguntas servem-lhe melhor do que o post do costume.


Quem escreve isto
Sou o Ricardo, 17 anos em design, os últimos 7 em produtos e UX, os últimos 2 a aplicar IA no trabalho real.
Durante o dia construo ferramentas com IA para milhares de utilizadores industriais, num dos maiores fabricantes de automóveis da Europa.
Fora disso, ajuda empresas portuguesas a pôr um sistema a funcionar, em ciclos de três meses. Um sistema, não quatroo
Se é isso que tens em mãos, diz-me.
Falamos 30 minutos e sais de lá a saber se faz sentido ou não.

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